jan 9, 2008 - Comportamento    4 Comments

Atratividade Física – ainda há muito o que se estudar


No primeiro semestre do ano de 2007, 4 amigos do curso de Psicologia da UFES, e eu, realizamos uma pesquisa para fins de uma de nossas disciplinas curriculares. A realização foi bem interessante, desde o tema até o método de realização e os resultados. O resultado dessa pesquisa foi publicado no mesmo site na qual foi realizada, entretanto, como o domínio do site não será renovado este ano, para que os resultados continuem no ar, estou publicando um resumo da pesquisa abaixo:

UMA ANÁLISE DA DISPONIBILIDADE E DO COMPROMETIMENTO NA ATRATIVIDADE
Anderson do Prado Corrêa (UFES), Carina Paiva Charpinel (UFES), Karyne Mariano Lira (UFES), Rafael Kilian (UFES), Tullio Cezar Aguiar Brotto (UFES) e Profa. Dra. Rosana Suemi Tokumaru (UFES).

Introdução:

Segundo Kniffin & Wilson(2004), para um biólogo evolucionista, a atratividade deve ser tratada como uma avaliação do valor físico de um possível parceiro, que seria formada por diversas estratégias e mecanismos cognitivos, surgidos num período ancestral. A percepção destas características, seja consciente ou não, pode ser considerada como uma das estratégias na avaliação da atratividade, e parecem estar intimamente correlacionadas às estratégias reprodutivas em outros animais.
Alguns autores (Otta e Queiroz,1998; Madey et al.,1996) apontam a influência de fatores culturais e sociais no julgamento do atrativo e na seleção de parceiros. Otta e Queiroz (1998) verificaram que as mulheres valorizam mais que os homens estabilidade financeira e relacionamentos com graus altos de comprometimento. Por sua vez, homens valorizam mais beleza do parceiro e priorizam relações de baixo comprometimento.
Todas essas estratégias de avaliação da atratividade por meio de traços físicos coadunam com a Psicologia Evolucionista no que se refere aos ambientes sociais ancestrais em cujas estratégias teriam emergido. Todavia, nestes ambientes ancestrais, “[...] interações tomaram lugar em pequenos grupos de pessoas cujos atributos físicos eram aproximadamente medianos e os atributos não-físicos eram intimamente conhecidos por todos”. (Kniffin & Wilson, 2004, p. 90). Assim, “[...] uma implicação fundamental desta visão [beleza como uma avaliação do valor físico]é que a percepção de beleza deve ser influenciada por fatores não-físicos Em adição aos fatores físicos”. (idem, p.89). Poucos são os estudos que buscam abordar esta linha de análise integrada da atratividade.

Objetivo:

Verificar a influência da disponibilidade do sujeito para relacionamentos sobre a avaliação da atratividade de modelos do sexo oposto com diferentes graus de comprometimento.

Método:

Esta pesquisa foi realizada em duas etapas:

Etapa 1

Participaram desta etapa 77 estudantes de Psicologia de 18 a 25 anos, através de um site onde foram apresentadas quinze fotos semi-padronizadas de pessoas do sexo oposto ao sujeito respondente, durante 8 segundos, tendo cada uma ao lado uma escala de 0 a 10 para que o participante avaliasse a pessoa quanto à atratividade física. Esse procedimento consistiu na seleção de quatro fotos de cada sexo que receberam notas dentro da média da escala (entre 4,4 e 6,6), supondo que estes indivíduos possibilitam uma maior variação na avaliação de atratividade. Também foi avaliado se o instrumento estava adequado para a pesquisa, através de observações dos participantes.

Etapa 2

Nesta etapa houve um grupo experimental e um grupo controle, totalizando 357 sujeitos heterossexuais de 18 a 25 anos. Utilizou-se o site, já mencionado, onde eram apresentadas quatro fotos de pessoas do sexo oposto ao do participante. Os participantes preencheram um questionário, no site, com algumas informações essenciais para a análise dos resultados e outras que tinham apenas a função de desviar a atenção do sujeito em relação ao real propósito da pesquisa e, portanto, não foram analisadas.
Para ambos os grupos (controle e experimental), cada foto foi apresentada, por 12 segundos, juntamente com informações sobre o nome e a idade do modelo. No grupo experimental, introduziu-se a variável “grau de comprometimento e disponibilidade” das pessoas que estavam nas fotos.
Na análise dos resultados, utilizou-se o teste de Mann-Whitney, que compara medidas contínuas ou ordenáveis entre grupos, para comparar as notas dadas pelos sujeitos aos diferentes modelos de acordo com a disponibilidade do sujeito e com a informação que tinham sobre o grau de comprometimento dos modelos. Para tal análise, os grupos masculino e feminino foram divididos em quatro categorias cada: informado (a) e disponível; informado (a) e não disponível; não informado (a) e disponível; não informado (a) e não disponível.

Resultados:

Participantes homens

particip homens

Gráfico 1 – Gráfico do teste de Mann-Whitney para os participantes do sexo masculino

Percebe-se, no Gráfico 1, que os homens disponíveis tenderam a dar notas mais altas que os não disponíveis independentemente de estarem ou não informados sobre a disponibilidade da modelo. Os homens informados e disponíveis deram notas significativamente mais baixas que os informados e não disponíveis à modelo solteira e não disponível (z= -2,739, p= 0,006). Tal fato aponta para uma possível influência da variável disponibilidade do participante na avaliação de atratividade.
Os homens informados e disponíveis atribuíram nota menor à modelo casada e com filhos (z= -2,437, p= 0,015) do que os homens não informados e disponíveis. Neste caso, verifica-se a influência da informação a respeito da modelo (casada e com filhos).

Quando se confrontou o grupo de homens informados e disponíveis com o de não informados e não disponíveis, foi observado que o segundo grupo atribuiu notas menores em todas as fotos, sendo três significativas: modelo solteira e não disponível (z= -2,044, p= 0,041), solteira e disponível (z= -1,958, p= 0,050) e namorando (z= -2,596, p= 0,009). Provavelmente, ocorreu uma co-atuação das variáveis disponibilidade e informação no sentido de permitir uma variação significativa das notas. Tal variação não ocorreu na avaliação da modelo casada e com filhos provavelmente porque o primeiro grupo foi influenciado pela informação do alto grau de comprometimento desta modelo, enquanto que o segundo possivelmente agiu em função do não comprometimento de seus participantes.
Além disso, os homens informados e não disponíveis atribuíram notas menores à modelo casada e com filhos (z= -2,153, p= 0,031) do que os não informados e disponíveis. Neste caso, como no anterior, observa-se a co-atuação das duas variáveis novamente.
Há também que se destacar que os homens não informados e disponíveis atribuíram notas maiores à modelo casada e com filhos (z= -2,754, p= 0,006) do que os não informados e não disponíveis. Aponta-se aqui a influência da variável disponibilidade do participante.

Participantes mulheres

particip mulheres

Gráfico 2 – Gráfico do teste de Mann-Whitney para os participantes do sexo feminino

Visualmente, percebe-se que, no Gráfico 2, não há grandes variações entre os grupos. Observando as notas atribuídas pelas mulheres informadas, mas de diferente disponibilidade, vê-se que são bastante parecidas, o que sugere a não influência do fator disponibilidade.
Ao se comparar estatisticamente o grupo de mulheres informadas e disponíveis com o de mulheres não informadas e não disponíveis, percebeu-se que o segundo grupo atribuiu notas menores ao modelo casado e com filho (z= -2,541, p= 0,011). Este resultado mostra que, provavelmente, houve a atuação das duas variáveis na comparação destes grupos. A não disponibilidade pode ter sido um fator relevante para que o segundo grupo atribuísse notas menores a esse modelo, assim como possuir a informação possivelmente foi importante para que o primeiro grupo atribuísse notas mais altas ao modelo. Independentemente do grau de comprometimento, parece que as mulheres avaliam com notas mais altas os sujeitos dos quais elas possuem mais informação, como pode ser verificado visualmente no Gráfico 2.
Vale observar que as mulheres informadas e não disponíveis avaliaram com notas maiores todos os modelos em relação às não informadas e não disponíveis. Destes modelos, entretanto, os que tiveram resultados significativos foram apenas: solteiro não disponível (z= -2,321, p= 0,020) e casado e com filhos (z= -2,952, p= 0,003). Aqui, pode se verificar novamente a influência da variável informação do modelo (solteiro não disponível e casado e com filhos).

Considerações Finais:

De uma forma geral, os resultados apontam para uma maior influência da variável disponibilidade do sujeito no sexo masculino. Assim, o sujeito que se considera disponível, tende a dar notas mais altas às modelos em relação aos que não se consideram disponíveis. Outro dado relevante é que a modelo casada e com filhos recebeu notas menores quando esta informação estava presente entre os sujeitos disponíveis. É possível inferir, a partir deste dado, a influência do aspecto qualitativo da informação presente – grau de comprometimento – na avaliação de atratividade das modelos.
No caso do sexo feminino, observa-se uma possível influência da variável informação, no aspecto quantitativo, a respeito do modelo. Assim, as mulheres tendem a avaliar com notas maiores os modelos dos quais elas possuem maior quantidade de informações. Isto pode ser verificado quando as mulheres não disponíveis e informadas avaliaram com notas maiores os modelos casado e com filhos e solteiro não disponível do que as que não possuíam essa informação.
Portanto, a pesquisa mostra, em consonância com a revisão bibliográfica, que fatores não-físicos influenciam na avaliação de atratividade.

Referências:

1. Otta, E. & Queiroz, R. S. (1998). A sexualidade humana numa perspectiva interdisciplinar. In: Souza, L. de, Freitas, M. de F. Q. & Rodrigues, M. M. P. (orgs.) Psicologia: Reflexões (im)pertinentes. São Paulo: Casa do Psicólogo.

2. Madey, S. F.; Simo, M.; Dillworth, D.; Kemper, D.; Toczynski, A. & Perella, A. (1996). They Do Get More Attractive at Closing Time, but Only When You Are Not in a Relationship. In: Basic and Applied Social Psychology, Vol. 18. Department of Psychology University of Toledo.

3. Kniffin, K. M. & Wilson, D. S. (2004). The effect of nonphysical traits on the percepcion of physical attractiveness: Three naturalistic studies. In: Evolution and Human Behavior, Vol. 25. Department of Anthropology, University of Winsconsin-Madison, Madison, WI, USA; Department of Anthropology, State University of New York (SUNY) at Binghamton, Binghamton, NY, USA; Department of Biological Sciences, SUNY-Binghamton, NY, USA.

4 Comments

  • Karyne M. Lira » Atratividade Física – ainda há muito o que se estudar…

    Resultado de uma pesquisa sobre a relação atratividade física e comprometimento afetivo! É claro que ainda a muito o que se estudar, mas os resultados foram muito interessantes! Confira!…

  • Nossa, que legal vc publicar um trabalho seu no blog. Ainda não tive essa coragem… mas vou chegar lá! Beijosssssss
    Priscila do http://www.bananacomcanela2.blogger.com.br

  • Olá, Karyne!

    Puxa, gostei de ver!
    Pela data da postagem, vi que realmente levou em conta minha sugestão!
    Isso aí… estimule seus colegas psi a publicarem seus resumos e etc.
    Mandou muito bem!

    E estimule seus colegas a lerem e postar os comentários aqui ou no link que do tópico da comunidade Psicologia ES, que postei aqui!

    Abraços.

  • Olá Pri! Há informações que não fazem sentido existir se não forem compartilhadas. Conhecimento é para ser conhecido!! Pense bem, acho legal que as pessoas conheçam aquilo com que vc está trabalhando!!! Espero publicar mais produções do tipo, aqui.

    Ei Victor!! Valeu o tok que me deu no orkut!! De verdade. Na época da pesquisa eu entrei em contato com tanta gente, que não lembrava nem por onde havia deixado convite para participar da pesquisa!!

    Bjs da Ká e bom FDS para vcs!

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