Blogosfera
3 Comments Entrando de cabeça na rede, deixando bruscamente o mundo!
Ela era apenas uma pessoa comum. Quer dizer… nem tão comum assim! Na verdade ela seria uma pessoa comum, caso as pessoas, e até ela mesma, não a achassem esquisita. E a propósito, sentir-se esquisita era uma das coisas que a caracterizava como tal!
O temperamento não era dos mais fáceis! Era bastante sensível, emotiva. Seu humor altamente variável. Gostava de viver TUDO intensamente, e isso incluía as alegrias e tristezas. Era de um nível intelectual avançado, adorava estudar e seu desempenho no campo acadêmico era invejável. Bonita, como qualquer brasileira bem misturada entre índios, negros e europeus. Entretanto… esquisita.
Sim. Era como se vivesse numa encruzilhada. Os liberais a consideravam conservadora, e os conservadores diziam ser ela liberal por de mais. Ela mesma não entendia como conseguia perambular por todas as formas de ser e existir, assim!
Certo dia, “@” (como a denominaremos) conheceu algo que mudaria sua vida. A internet.
Ela não havia tido sucesso em seus relacionamentos interpessoais. Apesar de todas as suas qualidades, eles nunca davam certo. Amizades ou namoros… não duravam muito. Ela não entendia o porquê. Só sabia que um dia, sempre, acabava. Mas com a internet, as coisas começaram a funcionar de forma diferente!
Ela era inteligente, tinha um papo legal, cativava as pessoas do outro lado da telinha com seu bom humor, e conseguia carinho e consolo quando o dia não estava dos melhores. Como virtualmente as pessoas se despem com menos cautela (e alguns com nenhuma), seus relacionamentos eram mais sinceros. Era cativada e cativava ao mesmo tempo. Fez amigos os quais jamais conheceu pessoalmente.
Com o tempo, a relação “ao vivo” com as pessoas começou a ficar mais difícil. Na internet ela não havia tido decepções. Assim, acreditava encontrar ali as pessoas que gostavam dela de verdade. Com isso, passava mais tempo se relacionando virtualmente, do que pessoalmente com as pessoas. E isso se intensificava a cada dia, até que relacionar-se pessoalmente tornou-se insuportável para “@”.
Dentro de algum tempo, suas relações afetivas e de trabalho estavam concentradas em um mundo virtual. Até mesmo se relacionava com pessoas com as quais, em alguma época de sua vida, conviveu pessoalmente, mas que agora estavam distantes. A família ficou preocupada. Ela não saia de casa, seu mundo cabia em poucos metros quadrados! Procuraram um terapeuta, mas como convencê-la a estabelecer um vínculo com alguém pessoalmente???
Realmente não foi possível. Precisaram encontrar um que se habilitasse a iniciar este vínculo via MSN. Mas as coisas se complicaram! Ela se apaixonou pelo terapeuta virtual. Entretanto, ele estava interessado apenas em um vínculo profissional. Precisou ser claro. Não podia iludi-la quanto a isso. Mas ele dava tanta atenção, ouvia com tanto interesse, era tão prestativo, e os conselhos eram ótimos… o melhor ser virtual conhecido até então!
O mundo da internet começou a ficar cinza para “@”. E pelo que parece, ela começou a sofrer de uma tal de “depressão de rede” (net’s depression). A patologia foi fatal! “@” entregou-se completamente à solidão e ao sofrimento (sintomas de sua doença) e em poucos dias deixava os mundos pessoal (antes já afastado) e virtual. No dia de sua morte, recebeu meia dúzia de visitas, poucas lágrimas e muitos e-mails.
Karyne M. Lira » Entrando de cabeça na rede, deixando bruscamente o mundo!…
Resumo de uma vida que sofreu a dor da exclusividade das relações virtuais: seu bom humor, e conseguia carinho e consolo quando o dia não estava dos melhores. Como virtualmente as pessoas se despem com menos …
Um texto denso e perturbador; um alerta. Gostei.
Que bom que gostou Wagner!!
Realmente um alerta… não que os internaltas vivam correndo este risco… mas de certa forma, nossa sociedade tem se afastado da pessoalidade!! E esta não necessáriamente precisa ser ao vivo e a cores, mas no mínimo, pessoal!
bjs