mar 17, 2008 - Comportamento    No Comments

Fechando Gestalten Com Poemas e Canções

(O texto abaixo é um resumo de um trabalho realizado pela autora do blog. A proposta do trabalho ainda está em andamento e a autora aberta a sugestões e considerações. Este post está participando da proposta “Blogagem Inédita”)

A gestalt-terapia é a uma terapia de totalidades, vivencial e experimental (MARTINS, 2000) que adota uma postura holística, valoriza o viver e o experienciar. Um dos objetivos intrínsecos à formulação filosófica e teórica da gestalt-terapia é permitir que aquilo que é importante para o organismo, relacionamento ou grupo surja em primeiro plano, como gestalt, podendo ser experienciado como um todo e no momento oportuno tornar-se fundo, ou seja, desocupar o primeiro plano (MARTINS, 1995).

Para tanto, o gestalt-terapêuta se utiliza, muitas vezes, de experimentos – método central da gestalt-terapia – que dizem respeito, muitas vezes, a uma tomada de consciência (BUROW; SCHERPP, 1985; DA SILVEIRA, 2005). Para a gestalt-terapia a consciência (awareness) diz respeito a uma percepção do que ocorre no aqui-e-agora, do que ocorre consigo e ao redor de si (BUROW; SCHERPP, 1985; DA SILVEIRA, 2005). Desta forma, o ponto de partida da terapia é permitir o contato do cliente consigo mesmo e com seus sentimentos, para que tome consciência do que ocorre consigo e possa superar situações que o impedem de agir.

Essas situações são conhecidas em gestalt-terapia como gestalten abertas. Enquanto estão abertas, as gestalten prejudicam a energia e concentração da pessoa, interferindo em suas atividades. O acúmulo de assuntos não resolvidos pode prejudicar o agir no aqui-e-agora ao passo em que estes assuntos tornam-se primeiros planos (BUROW; SCHERPP, 1985). E este tipo de situação pode surgir em qualquer tipo de relação.

Ao considerar qualquer expressão criativa como indício do ser, os terapeutas gestaltistas podem recorrer à modelagem, à pintura, à dramatização, ao desenho, buscando ligações que permitam uma (re) significação e uma (re) configuração perceptiva. (DA SILVEIRA, 2005, p. 6)

Tendo em vista que o homem é um ser em constante relação, que conceitos como o da Situação Inacabada fornecem recursos para o trabalho terapêutico nestas relações (DA SILVEIRA, 2005) e que a expressão criativa pode ser uma ferramenta utilizada pelo terapeuta neste trabalho, buscou-se, aqui, verificar uma possível utilização da música na gestalt-terapia.

Perguntou-se a 4 pessoas, entre 20 e 30 anos, que trabalham ou já trabalharam com música, se alguma música já o fez refletir sobre uma situação inacabada, ou assunto não resolvido com alguém, e que tipo de relacionamento a pessoa tinha com esse alguém na ocasião. Todos os quatro responderam que sim, e citaram amigos, namorados e pais como as pessoas com quem a relação possuía um assunto inacabado na ocasião em que a música os fez refletir.

Um rapaz de 27 anos deu a seguinte resposta:
“Muitas vezes, em muitos tipos de relação. Os tipos variam conforme a música. Relação paternal, relação fraternal, relação amorosa. Mas nenhuma, para mim, teve, e ainda tem, tanto impacto quanto a musica Pai de Fábio Júnior, pois nossa relação verdadeira de pai e filho estava apenas começando quando ele faleceu em um acidente de carro.”

Ao falar sobre o que esta música o havia feito pensar ou sentir sobre o ocorrido, ele disse que a música não facilitou a despedida, mas o reencontro, pois ouvi-la é reencontrá-lo. No entanto, ressaltou que este fato não o impede de continuar a vida, e lhe fornece reflexões.
Além das músicas que já se encontram prontas, composições da própria pessoa podem levá-la a refletir sobre a situação inacabada e fazer contato com o sentimento que a acompanha. É muito possível que as músicas que ouvimos digam respeito a algo vivido pelo autor de suas letras e possível também que escrevê-la tenha sido uma forma de ele fazer contato com algo inacabado em sua vida.

Ao perguntar ao mesmo rapaz citado anteriormente se já havia escrito uma poesia ou feito uma música para/sobre o pai após o falecimento, ele respondeu que não, mas que estava, naquele momento, pensando em escrever algo, pois queria encerrar uma outra situação que ainda se encontrava em aberto. Em suas próprias palavras, “to justamente dando um basta numa situação inacabada”.

Algo bem peculiar que pode ser observado, por exemplo, em músicas românticas é a freqüência com a qual suas letras falam de coisas que as pessoas possuem dificuldade de dizer pessoalmente. Desta forma, para alguns, ela se torna uma meio de expressão do que se sente ao escrevê-la, e para outros, ao reproduzi-la para alguém.

E não apenas para desabafar, falar o que não se tem coragem, mas também para refletir sobre o que se vive no aqui e agora. A música carrega conteúdos, que não se limitam a trazer a dor e o contato com esta, mas também o contato com o que ocorre além da dor, com as possibilidades que a pessoa possui diante desta na realidade em que vive.

“È difficile per me imparare a vivere,
Senza abbandonarmi al mio presente inaspettatamente senza te.
Ero qui, eri qui, parlane adesso non ha più senso, o forse si
Perché una vita sola non può bastare per dimenticare quando sipuò amare
Al tuo nome e alla tua voce pensare senza farmi male
E una vita sola non può bastare per dimenticare una storia chevale”
(PAUSINI, 2001)*

Neste trecho, o autor fala não só da dor da ausência do outro. Reconhece a dificuldade que a ausência inesperada dele causa, reflete se há ou não sentido em se falar de passado no agora e conclui que talvez uma vida só não baste para pensar no nome do outro sem se sentir mal. A vida possui muitos detalhes, a música continua dizendo, e não se pode pensar que de uma hora para a outra a pessoa apagaria todo um passado. E talvez, apagar não seja a saída, mas sim viver a vida que continua a partir do agora carregando a vantagem de se conhecer uma das faces dos relacionamentos, a dor.

Mais do que uma porção de palavras bonitas, com rimas e harmonia, as letras de músicas podem denunciar situações inacabadas vividas pelo seu autor, ou até mesmo por quem as ouve. Ao mesmo tempo, em concordância com Da Silveira (2005), o uso da música, que também é um tipo de expressão criativa, pode auxiliar o terapeuta na busca por uma (re) configuração da percepção do cliente.

Desta forma, para pessoas que se identificam com música ou poesia, e que costumam lê-las, ouvi-las ou escrevê-las, compor seus próprios versos e estrofes pode ser um experimento proposto pelo terapeuta para auxiliar o cliente no contato com o seu aqui-e-agora, com o que se sente, e possibilitar que gestalten abertas fechem-se e permitam que a vida continue.
Algumas músicas parecem estar cheias de gestalten abertas, e outras de gestalten que se fecham. Citando Fábio Júnior em “Pai”, “[…] pode ser que daqui a algum tempo haja tempo pra gente ser mais […] pai e filho talvez”, mas agora é hora de viver o aqui-e-agora.

*É difícil para mim, aprender a viver / Sem abandonar meu presente / Inesperadamente sem você / Eu estava aqui, você estava aqui / Falar disso agora não há mais sentido, ou talvez sim / Porque uma vida só não basta / Para esquecer quanto se pode amar / Pensar no teu nome e na tua voz / Sem me fazer mal / E uma vida só não basta / Para esquecer uma história que vale.

Referências

BUROW, O.A.; SCHERPP, K. Princípios e métodos gestálticos no processo terapêutico. In:_____. Gestaltpedagogia: Um caminho para a escola e a educação. São Paulo: Summus, 1985. cap.4, p. 77-95.
DA SILVEIRA, Teresinha. Caminhando na corda bamba: a gestalt-terapia de casal e de família. IGT na Rede, Brasília, DF, v. 2, n. 3, 5 agosto 2005. Disponível em: . Acesso em: 06 nov. 2007.
MARTINS, A. E. de O. Notas para um mini-manual de gestalt-terapia. ITGT. 1995
MARTINS, A. E. de O. O diálogo entre a teoria e a prática na gestalt-terapia. Rio de Janeiro, 2000.
PAUSINI, Laura. Una Storia Che Vale. In: The Best Of: E Ritorno Da Te. Warner Music, 2001. 1 CD, faixa 16.

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