Esta semana li um post sobre quão cedo o ritmo de nossa vida nos requer a escolha de uma profissão. Pensei um pouco sobre como foi escolher a minha, sobre as intrigas que ocorrem entre profissões, sobre especilismo… e enfim. Ontem, uma professora da graduação me emprestou um livro que contem depoimentos do chefe de uma tribo indígena, a respeito de como ele via os homens brancos, e, folheando o livro, encontrei um capítulo no qual ele fala sobre a profissão do homem branco. O nome do livro é “O PAPALAGUI: comentários de Tuiávii, chefe da tribo Tiavéa, nos mares do sul”.

Seguem abaixo alguns trechos muito interessantes deste capítulo. Ao ler, aproveite para refletir.

“É difícil dizer o que é profissão, mas todo Papalagui tem uma. É uma coisa que se deve ter muita alegria ao fazer, mas raramente isto acontece. Ter uma profissão significa fazer sempre a mesma coisa, uma só coisa, e tantas vezes que se consegue fazê-la de olhos fechados e sem esforço algum” (p. 71)

“Profissões há para homens e para mulheres. [...] A mulher larga a profissão assim que se casa; o homem quando se casa é que realmente se consagra à sua profissão. Nenhum álli dá a filha a um pretendente que não tenha profissão.” (p. 71)

“Por isso é que todo Papalagui, muiuto antes do tempo em que o jovem se tatua, deve decidir que trabalho vai fazer durante a vida inteira. Chama-se a isso “escolher uma profissão”.” (p. 71)

“Mas se o Papalagui, mais tarde, chega a perceber que prefere construir cabanas a tecer esteiras, dizem: “Ele errou de profissão” [...] Isso é uma coisa muito séria porque é contra a moral adotar, simplesmente, outra profissão” (p. 71)

“[...] Tudo que faz o Papalagui se transforma em profissão. [...] Tudo que se faz é uma profissão, com as mãos ou com a cabeça. Também é profissão ter idéias ou olhar para as estrelas. Não há, a bem dizer, coisa alguma que um homem seja capaz de fazer que o Papalagui não transforme em profissão.” (p. 71 e 72)

“É por isso que quase todos os Papalaguis só sabem fazer aquilo que é sua profissão. [...] Esse só-saber-fazer-uma-coisa é uma grande fraqueza e um grande perigo porque qualquer um pode se ver, um dia, obrigado a remar numa canoa pela lagoa.” (p. 72)

“[...] é que existem Brancos que já não podem correr pois criam muita gordura no ventre, como os puaas porque têm de estar sempre parados, obrigados pela profissão [...]” (p. 73)

“Se tivéssemos o direito de fazer apenas uma coisa e não pudéssemos participar de todos os trabalhos que precisam da força humana, teríamos só metade da alegria, ou talvez nenhuma![...] é daí que vem a miséria maior do Papalagui.” (p. 74)

“E é por isso que existe ódio ardente entre os homens que têm profissão diferente. Todos guardam no coração uma coisa como um animal preso por grilhões, que se rebela sem conseguir soltar-se. Todos estão sempre comparando as suas profissões, cheios de inveja e má-vontade; fala-se em profissões elevadas e baixas, embora todas sejam apenas atividades parciais.” (p. 75)

* Papalagui = homem branco
* Puaas = porcos