Com quantos algarismos se faz um homem?

Nós possuimos identidade, CPF, matrícula no colégio, matrícula na empresa, matrícula no cartão do coletivo, número de cartão de crédito, número na chamada da sala de aula, um número que representa o nosso coeficiente ao final de cada semestre/bimestre … número de ramal … acho que você consegue pensar em mais alguns números que carregamos conosco.

Nossa sociedade criou tantos números para cada pessoa, que muitas vezes deixamos de ser pessoas e somos apenas números. Alguns jogadores de futebol, volta e meia, deixam de ter nomes e têm suas jogadas narradas como “o camisa X fez…”. Você liga para uma empresa e ao perguntar algo à atendente, ela diz: “fale com o ramal xxx…”. Será que ela não sabe o nome da pessoa que atende naquele ramal?

Essas centenas de algarismos, muitas vezes, parecem causar uma objetivação do sujeito de forma que ele deixa de ter emoções, desejos e conflitos. Isso mesmo. Quando a pessoa tem algum problema com o cartão de crédito ou CPF, ninguém procura saber o que se passa com essa pessoa. Tudo com o que se importam é em bloquear aquele número e impedir suas transações.

Mais absurdo, mas não impossível, é que muitas vezes a pessoa pode deixar de existir e mesmo assim seu número continuar “vivo”. O mundo não dá conta de lidar com cada sujeito, então lidam com os algarismos que nos compõem.

O homem-número não é mais um super-herói de histórias em quadrinhos. Na verdade, ele se encaixa muitas vezes melhor na pele de vítima. Vítima de um anulamento de sua subjetividade e de seu existir.

Gostaria de entender de onde se tirou que podemos numerar as pessoas. Com que régua se mede um aluno para atribuir-lhe um número ao final de cada período letivo? Não há parâmetros concretos para tanta numeração. Acaba que o homem objetivado através destes algarismos incorpora o caráter abstrato e a forma invisível que tais algarismos possuem. Sente-se, no máximo, ao final das contas, apenas “+1″!