De repente me vi correndo desesperada de encontro a não sei oque. Eram muitos como eu, todos correndo bastante. Quando me dei conta, havia colidido contra algo esférico e já estava dentro dele.
Em alguns meses tudo era diferente em mim. Eu e aquela coisa esférica éramos um só. Estavamos em um local escuro mas confortável. Tinhamos tudo o que precisávamos ali.
Certo dia, sem me perguntarem se eu queria, resolveram me tirar de lá. Eu tentei dificultar as coisas, mas eles tinham uma porção de parafernalha que me arrancou brutamente de meu cantinho. Senti uma dor imensa quando meus pumões se encheram do que eles chamam de ar. Chorei muito. Não conseguia acreditar que haviam me arrancado a força daquele lugar que a meses me abrigava.
Depois de alguns minutos, estava começando a descobrir como esse novo lugar também era bom. Alguém chamado “mamãe” me acolheu, me encheu de beijos e me deu um negócio para eu tomar, que saia de dentro dela. Eu tinha novamente um lugar confortável e alimento. Mas desta vez tinham muitas pessoas ao redor. Isso assustavaum pouco.
Alguns meses se passaram, e o seio de mamãe foi substituído por uma tal mamadeira. Eu chorava e tentava mamar como antigamente, mas às vezes mamãe não estava presente, e alguém que cuidava de mim colocava um alimento dentro da mamadeira e eu sugava às vezes até dormir. Me deram também uma tal de chupeta. Acho que ela serve para fazer criança parar de chorar, porque toda vez que eu chorava, eu ganhava a tal chupeta.
Nesse tempo, outra coisa me aconteceu também. Começaram a quere me colocar em pé. Não sei o porquê, mas todo mundo me pegava pela mão e tentava me fazer equilibrar só com as duas perninhas. Será que ninguém percebia como era mais fácil ter o apoio das mãos também. Insistiram tanto, que após alguns tombos eu comecei a fazer o que eles chamam de andar. Descobri que andar era o maior barato. Que dava para correr também!! As coisas estavam ficando mais divertidas, e em pé eu via o mundo de um jeito diferente.
Mas assim como até esse momento as coisas não paravam de mudar, minha vida tem sido de completa transformação. Depois disso, quiseram me tirar a mamadeira e a chupeta. Acho que não sabiam como sugar aquilo era tão gostoso para mim. Também quiseram me ensinar a fazer xixi e cocô numa tal privada. Coisa complicada!! Eu tinha que descobrir a hora em que o xixi e o cocô queriam sair e tinha que correr para o banheiro. Era tão mais fácil usar a fralda! E como eu havia aprendido a correr, não cansava de ouvir agora que tinha que tomar cuidado aqui, que não era para subir ali, bla bla bla. Sem contar que eles tiravam tudo que eu já havia tentado colocar na bola durante esse tempo todo.
Depois me colocaram em uma tal de escola. Tinha uma porção de crianças também, mas todos tinhamos que fazer silêncio e ouvir a tia. Tive que aprender a segurar o lápis, escrever, ler. Ah! E antes que me esqueça, antes da escola tive que aprender a falar! É, porque se não ninguém resolvia as coisas que eu precisava.
Cheguei numa idade que as pessoas chamam de puberdade. Coisa estranha!! O nariz, o pé e as orelhas dos meninos parecem ficar enormes nessa época. Meu corpo também se transformou, e agora meus meses possuiam fases que antes não existiam! Foi nesse tempo também que me apaixonei por um professor. Acho que todas as minhas amigas também eram apaixonadas por ele, mas ele não dava bola para ninguém.
Mais alguns anos e precisei escolher uma profissão. Eu mal sabia o que queria ser, mas havia terminado o Ensino Médio, e nessa época, todos escolhem um curso e vão para a faculdade.
Finalmente, estudando, encontrei uma pessoa fantástica e tive muita vontade de viver ao seu lado. Terminei a faculdade e fui jogada em uma selva, também conhecida como mercado de trabalho. Casei e comecei aconstruir minha família.
Enfrentei o desemprego, vivi a gravidez, criei minhas crianças, trabalhei. Cada dia uma adaptação, afinal de contas, mesmo adulta, a vida não para de nos fazer adaptar aos contratempos, imprevistos e situações talvez esperadas.
Chegou a vez de meus pequenos irem para a escola. Como doeu em mim aquele primeiro dia!! Lembrei de como chorei quando eu era pequena e tive que me separar de mamãe no primeiro dia também. Mas os filhos cresceram. E eu não parei de crescer, também! Quer dizer, depois de adultos, não nos resta mais crescer, só envelhecer.
Tive que aprender a lidar com a flacidez e as rugas que o tempo me trouxeram. Cada fio de cabelo era um friozinho no estômago. Então chegou a menopauza. Parecia que o mundo estava caindo. Mas assim como durante toda a vida, era apenas mais uma fase estranha que depois se tornava comum e confortável até que chegasse uma nova fase para me tirar deste conforto.
Quando penso friamente em cada acontecimento destes, vejo como foram traumáticos. Nunca me perguntaram se eu queria passar por cada mudança que fui obrigada a viver. Contudo, não fossem esses “traumas”, quem seria eu? É estranho pensar em um “eu” sem os traumas que me compõe.
E assim é a vida!!!
Karyne nasceu e mora no ES. É brasileira antes, durante e depois da Copa, e apaixonada também pela cidade de Santiago – Chile.
Formou-se no Curso Fundamental de Música pelo Conservatório Brasileiro de Música Centro Universitário / Conservatório de Música de Vila Velha e, atualmente, cursa Psicologia na Universidade Federal do Espírito Santo.
É Adventista do Sétimo Dia. Regeu o Coral Jovem de sua Igreja por dois anos, e hoje atua como pianista e diretora associada do Dep. de Música.
É apaixonada pelo namorado. Gosta de ficar com a família, namorar, cantar, dormir, escrever, comer, ler, passear, assistir filmes, ouvir música, rir, fazer amigos na internet… e viver.
Livros preferidos: Bíblia, O abraço de Deus, FREAKONOMICS e Lucíola.
Uma frase: “Descubra em que você é bom, e seja de propósito”
MaxReinert
abril 2nd, 2008 at 2:07 pm
karyne
abril 5th, 2008 at 10:17 pm
Falou bobagem não… mas esse é o sentido popular de trauma. Realmente, desde que nascemos ouvimos trauam como algo que só faz mal. Na verdade a idéia do texto é mostrar o trauam como algo que nos constrói. Faz parte do que nos compõem como pessoas. A personagem fictícia do texto está fazndo uma reflexão, como se ela tivesse tomado ciência de algumas coisas da vida que não percebemos. MAs.. sem dúvida, somos todos traumatizados!!! Cada etapa de nossas vidas foi marcada por um trauma, e graças ao nosso aparelho psi, não ficamos lembrando de cada uma!! Mas… acha que não é traumático ter que largar a chupeta?? Esse é um trauma q traz consequÊncias p/ toda vida!!!
bjoks!!!
muuuuito obrigada pela visita amigo de condomínio!!